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Génese – Perguntas Frequentes

A primeira Academia do Bacalhau, foi fruto de uma velha e curiosa história de amizade lusófona, nascida há quase 50 anos em Joanesburgo, África do Sul, onde na altura viviam e trabalhavam cerca de 1 milhão de portugueses.

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A ideia de se criar tal Academia surgiu num jantar, oferecido em Março de 1968 no Hotel Moulin Rouge, em Hillbrow, Joanesburgo, ao jornalista Manuel Dias de “O Primeiro de Janeiro” do Porto, que na altura se encontrava de visita àquele País e durante o qual se discutiu, entre outros assuntos relacionados com a comunidade portuguesa, como comemorar naquele país o dia 10 de Junho, Dia de Portugal e de Camões.

Foram quatro amigos, o Eng.º José Ataíde (já falecido e na altura Administrador Delegado da Sonarep), o Dr. Ivo Monteiro (também já falecido e na altura Delegado do ICEP), o Dr. Rui Pericão e o Dr. Durval Marques, hoje Presidente Honorário das Academias, que em boa hora tiveram a extraordinária e feliz ideia de fundarem a “Academia do Bacalhau de Joanesburgo”, iniciando-se assim um movimento que os próprios fundadores, nunca imaginaram as repercussões da sua existência e a multiplicação das mesmas por todo o mundo, podendo-se comparar este fenómeno a uma gigantesca onda de choque no domínio da amizade, portugalidade e solidariedade social.

Depois desse histórico jantar, tiveram lugar algumas reuniões para se estabelecerem os respectivos princípios e normas e se pôr a ideia em marcha.

Foi assim que, no dia 10 de Junho de 1968, se realizou o primeiro Jantar-Tertúlia no Restaurante “Chave D’Ouro” para se comemorar pela primeira vez na África do Sul o dia de Portugal e se inaugurou oficialmente a Academia do Bacalhau de Joanesburgo, hoje chamada de “Academia Mãe”, tendo sido o Eng.º José Ataíde o seu primeiro Presidente.

fiel-amigoA curiosa denominação de Academia do Bacalhau pode conduzir a deduções erróneas sobre a natureza e a génese deste movimento universalista. Com efeito, a Academia nada tem a ver com uma confraria gastronómica de bacalhau, nem nos seus objectivos, nem nos seus princípios norteadores.

A escolha do nome revela o traço de unidade comum que deve figurar na diáspora portuguesa e assentou em razões lógicas, afectivas e histórico-culturais, uma vez que, para os portugueses, o bacalhau foi, é e será simbolicamente conhecido como o “fiel amigo”, enquanto representação tradicional de alimento tanto na mesa do pobre como na do rico, sendo por todos apreciado no quotidiano e em ocasiões festivas.

A razão lógica prende-se com o facto de a Academia congregar um grupo de “fiéis amigos”, sendo que o mais apropriado e carinhoso nome para a baptizar não poderia ser outro que não o de Academia do Bacalhau.

A razão afectiva decorre do contexto de expatriação no qual se fundou a Academia do Bacalhau. Longe da pátria, o bacalhau saboreado em convívios e tertúlias entre portugueses atenua a distância de todos aqueles que sentem os olhos marejados pela saudade do seu tão querido Portugal.

caravelaA razão histórico-cultural, por seu lado, remete para a importância alimentícia deste peixe assim conservado. O elevado nível proteico do bacalhau, associado à capacidade de ser conservado durante muito tempo, foi um factor determinante de vantagem na corrida ao desenvolvimento das civilizações ao longo dos séculos. Já na Idade Média, o bacalhau ganhou fama de alimento durável e de sabor mais agradável do que outros peixes salgados, tornando-se o recurso alimentar das gentes pobres até à Segunda Guerra Mundial.

A relação íntima que os portugueses estabeleceram com este alimento remonta ao século XII, mas foi na época dos Descobrimentos, em particular no século XVI, que o bacalhau foi crismado de “fiel amigo”. Não é por acaso, aliás, que a língua portuguesa se apropriou do termo ao longo dos tempos, em diferentes expressões idiomáticas, como sejam: “estender o bacalhau” ou “dar uma bacalhauzada”.

Houve também quem o tenha apoucado e depreciado ao proclamar que, “para quem é… bacalhau basta” – tempos do “bacalhau a pataco” que corresponderam a períodos pautados pelo preconceito mais do que pelo bom gosto, mesmo se a iguaria, quando de boa qualidade, nunca tenha sido um produto barato.

A Igreja Católica, também ela, impulsionou a popularização do bacalhau, instituindo dias de jejum. Às sextas-feiras, nos 40 dias da Quaresma, entre demais dias do calendário cristão, era proibida a ingestão de comidas “quentes”, como as carnes, sendo apenas autorizadas as “frias”, como os peixes. Sendo a carne interdita em quase metade do ano, os dias de jejum passaram a ser os dias do bacalhau salgado e seco. Todos estes hábitos e costumes alimentares seculares fazem de nós, portugueses, os grandes apreciadores do bacalhau salgado, à semelhança de outros povos do Sul, como os nossos vizinhos bascos, os catalães franceses de Nice e a população de certas regiões de Itália.

E assim foi, também graças ao bacalhau e à sua descoberta nos mares do Norte em 1497, que se tornaram fisicamente possíveis as prolongadas viagens de destino incerto que os portugueses encetaram, dando início ao processo histórico que hoje se designa por Globalização.

Por estas múltiplas razões, as tertúlias organizadas mensalmente, por todas as Academias do Bacalhau do mundo, frequentemente incluem no seu cardápio o bacalhau regado com azeite e acompanhado de um bom vinho tinto português, que por seu lado é condição sine qua non para tradicional e especial brinde académico, o Gavião de Penacho, entusiástica e calorosamente entoado por todos os compadres como forma de iniciar e encerrar as reuniões, assim como de homenagear convidados e entidades oficiais.

Amália Rodrigues

Amália Rodrigues, primeira Comadre

Haverá alguma outra designação na língua portuguesa que celebre melhor os laços de pura, desinteressada e sã amizade que são os existentes entre os membros da Academia do Bacalhau do que a palavra compadre ou comadre?

Independentemente de posições sociais e do grau de cultura de cada um, esta é a forma como se tratam entre si os membros de todas as Academias do Bacalhau, nos cinco continentes. Um trato à boa maneira rural lusitana e que lembra que o coração tem uma só cor e bate a um só compasso. Qualquer cidadão do mundo pode vir a ser compadre, pois as Academias do Bacalhau não se fecham em si mesmas, nem se enclausuram à maneira de um gueto, mantendo a porta sempre aberta às diversas sociedades que as acolheram nos cinco cantos do mundo.

Não será aliás de estranhar a decisão dos fundadores de designarem os membros por compadres, como se de um padrinho se tratasse. Afinal não é esse o nome que damos aos padrinhos dos nossos filhos e netos, conferindo-lhes uma tutela moral e vendo neles os nossos “fiéis amigos”, os quais, na ausência dos pais ou avós, saberão aconselhar e orientar a vida dos entes queridos?

Ora, se existem compadres, surgiu como natural a inclusão de comadres que, desde sempre, marcaram presença nos jantares e festas especiais. Inicialmente,
e pelas razões anteriormente evidenciadas, as mulheres eram designadas por comadres, mas por afinidade, assumindo-se a ideia de que eram convidadas e não membros de pleno direito. Em 2009, no Congresso Mundial das Academias do Bacalhau realizado na cidade sul-africana de Pietermartzsburg, e face ao aumento da participação das mulheres na actividade regular das Academias, foi oficializado por unanimidade o estatuto de comadre de pleno direito.

Contrariamente às comadres por afinidade, convidadas para os eventos da Academia, as comadres de pleno direito, tal como os compadres de pleno direito, manifestam expressamente essa vontade, passando a pagar as subscrições anuais estabelecidas e a ser detentoras do Diploma e do Cartão, ou por outras palavras, passando a ter os mesmos direitos e deveres dos compadres efectivos.

simbolos-academiaComo todas as instituições e agrupamentos, também as Academias do Bacalhau têm símbolos identitários dos valores e princípios académicos deste movimento filantrópico genuinamente português, hoje tornado universal.

  • O Estandarte, com a indicação do nome da Academia e a respectiva data de fundação.
  • O Diploma
  • O Cartão de Compadre
  • O Badalo, apenas utilizado pelo Presidente para impor ordem nos jantares e eventos. À semelhança da bandeira, o badalo é oferecido pela Academia Mãe, na cerimónia de abertura oficial da nova Academia.
  • O Emblema e a Gravata, de uso obrigatório. Caso os compadres não os usem são multados pelo “carrasco”, figura com um papel activo na angariação de fundos durante os eventos.

gaviao-de-penacho-azulejoVerdadeiro hino académico, o Gavião de Penacho foi entoado pela primeira vez numa tertúlia da Academia do Bacalhau de Joanesburgo, em 1969, ano da primeira digressão por terras sul-africanas do Orfeão Universitário do Porto, do qual fez parte o fundador e Presidente-Honorário Durval Marques.

A convite da Academia do Bacalhau de Joanesburgo, o coro académico portuense teve a oportunidade de visitar a África do Sul, sentindo-se imediatamente em casa no meio dos compadres com quem logo cantaram o seu Gavião de Penacho, exteriorizando a sua exuberante alegria, boa disposição e até uma boa dose de salutar e académica irreverência, que quadrava na perfeição com as praxes e rituais adoptados e que lembravam os deles.

O Gavião de Penacho acabou, assim, por ser “importado” do Orfeão Universitário do Porto, fazendo hoje parte do cerimonial que acompanha os Almoços e Jantares- -Tertúlia das Academias do Bacalhau em todo o mundo. É com este cantar académico que obrigatoriamente se iniciam e encerram estes eventos, servindo ainda para brindar ou homenagear alguma personalidade convidada.

Ao som do badalo, o Presidente dá o mote. Todos os compadres, comadres e convidados se levantam, erguendo as mãos com o seu copo de vinho tinto e entoam em coro animado o Gavião de Penacho, findo o qual e depois de bebido o conteúdo até à última gota se segue um corrupio de copos que se tocam e logo depois uma calorosa salva de palmas.

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Após a fundação da Academia-Mãe exactamente em 1968, começaram a espalhar-se pela principais cidade da África do Sul, nomeadamente Cape Town, Durban, Port Elisabeth, Welkom, PieterMaritzburg, Pretoria, East London, Rustenberg e posteriormente Suazilândia e Namíbia, tornando-se cada vez mais conhecidas pelas acções de filantropia, solidariedade e assistência moral e material que prestavam aos portugueses emigrante mais necessitados, mas também pela defesa e prestígio do bom nome de Portugal e dos portugueses, bem como pela afirmação dos nossos valores histórico-culturais.

Ninguém olhava ao que o vizinho dava e o importante era conseguir-se o montante necessário para que, por exemplo, se pudesse dar uma bolsa de estudo a um estudante, uma cadeira de rodas a um inválido, ajuda monetária a uma família carenciada ou até se pudessem realizar intervenções cirúrgicas, etc.

Entretanto, já com outras Academias a funcionar na África do Sul e após o 25 de Abril, começaram a surgir imensos casos verdadeiramente dramáticos que necessitavam de ajuda imediata, nomeadamente famílias de compatriotas proveniente de Moçambique e Angola que procuravam, em condições trágicas e desesperadas, segurança na África do Sul, trazendo muitas vezes só a roupa que vestiam e eram recebidas em “campos de refugiados” que o governo sul-africano disponibilizou.

Tal situação originou que no IV Congresso das Academias do Bacalhau, realizado na Suazilândia entre os dias 8 e 10 de Novembro de 1974, fosse tomada a decisão de se criar na África do Sul a Sociedade Portuguesa de Beneficência – SPB, bem como uma Federação que pudesse vir ajuntar todas as organizações da comunidade portuguesa em África.

Podemos pois considerar um marco da mais relevância importância a criação em finais de 1975 e na África do Sul, da Sociedade Portuguesa de Beneficência, a qual deu um grande apoio e prestou toda a assistência a milhares de compatriotas provenientes de Angola e Moçambique e fundou posteriormente o Lar de Santa Isabel nos arredores de Joanesburgo, que constitui uma admirável obra de acolhimento para emigrantes portugueses da terceira idade e que é actualmente considerado um dos melhores lares de idosos na África do Sul.

Quanto à ideia da referida Federação atrás mencionada, nunca se chegou a concretizar.

Há que considerar dois factos históricos que impulsionaram a universalização deste movimento: o 25 de Abril de 1974 e as mudanças politicas que tiveram lugar na África do Sul, levaram que muitas centenas de milhares de portugueses deixassem o continente africano por razões de segurança, para reconstruírem as suas vidas em Portugal e noutros países por esse mundo fora, mas trazendo no seu coração, o espírito altruísta das “Academias do Bacalhau” e desta maneira, conjuntamente com portugueses já residentes nesses países, se fundaram outras Academias, devidamente autorizadas pela chamada Academia-Mãe de Joanesburgo, mas obedecendo todas ao mesmo ideário e às mesmas Normas.

E foi assim que, volvidas cinco décadas esta instituição genuinamente portuguesa e em boa hora baptizada de Academia do Bacalhau, se universalizou!… Ver Quadro

Congressos das AcademiasA realização destes Congressos reveste-se de extrema importância para se interiorizar e sentir a verdadeira alma e razão de ser das Academias do Bacalhau no mundo, pois representam e significam a consagração dos princípios que levaram as Academias a surgir noutras latitudes.

Tratando-se de um movimento universal, as 56 Academias são convidadas a reunir nos congressos mundiais. O evento anual constitui um momento privilegiado para se interiorizar e sentir a verdadeira alma das Academias do Bacalhau no mundo, pois representa a consagração da vitalidade dos princípios que estiveram na sua génese, nas mais diferentes latitudes.

Sem estatutos ou registos oficiais que as vinculem institucionalmente enquanto associações, as Academias do Bacalhau têm-se regido ao longo de mais de quatro décadas de existência por normas bem claras e ancoradas na fidelidade aos valores tradicionais portugueses.

A força e a vitalidade características das Academias residem essencialmente no espírito que anima “pessoas que sabem sentir pessoas” e que as leva a reunir local e mensalmente, assim como, todos os anos nos congressos mundiais organizados, por seu lado, sob um sistema rotativo e por ordem de antiguidade, contemplando, desta forma, todas as cidades nas quais foram criadas e desenvolvem a sua acção, nos mais diversos países. Cada congressista paga as suas despesas de deslocação e alojamento, sendo as Academias apenas responsáveis pela organização do evento.

O crescimento sustentado das Academias do Bacalhau são um claro indicador de que o espírito basilar se mantém são e promissor, sendo que o futuro passa necessariamente pela juventude portuguesa. É por isso imprescindível que a mesma se sinta motivada a aderir a este movimento universalista. Esse tem sido, aliás, o apelo lançado nos congressos mundiais.

Nestes congressos – que contam com a presença de centenas de compadres e comadres vindos dos cinco cantos do mundo, mas também de entidades oficiais portuguesas e do país anfitrião –, o Presidente e os delegados dão conta dos laços estabelecidos e dos actos de solidariedade levados a cabo ao longo de mais de um ano de actividade, analisando-se, discutindo e aprovando propostas com vista a melhorar o funcionamento das Academias e delinear objectivos para o futuro.

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Para além da agenda de trabalhos, os congressos pautam-se por serem momentos e espaços de convívio contando, no último dia, com um Jantar de Gala no qual, para além da mensagem de despedida do Presidente da Academia organizadora e da habitual troca de prémios, os compadres têm a oportunidade de assistir a um espectáculo de variedades com danças e cantares típicos da região ou do país anfitrião.

Ver quadro dos Congressos realizados

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