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Introdução

Introdução ao Movimento das Academias do Bacalhau

Maria Manuela Aguiar

Ex-Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas

 

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Maria Manuela Aguiar

As Academias do Bacalhau estão hoje espalhadas no mundo, como verdadeiros padrões de presença portuguesa, cumprindo uma vocação matricial de convivialidade, que vem marcando o seu trajecto de várias décadas, sempre a irradiar alegria, a expandir a nossa cultura e os nossos costumes, a oferecer solidariedade a quem precisa.

A ideia que lhes deu origem é, em si mesma, uma ideia felicíssima e singular: partir de uma simples tertúlia de amigos, reunidos num almoço habitual, e juntar-lhe, numa fórmula que faz toda a diferença, as componentes essenciais da cultura e da beneficência.

Mas por muito interessante que fosse este “achado”, ao colocar uma forma de associativismo lúdico ao serviço dos mais nobres objectivos da sociedade, os seus autores não terão, com certeza, imaginado a assombrosa aventura humana em que haveria de se traduzir!

O mundo da Diáspora Portuguesa era formado por um sem-número de Comunidades engendradas pela mesma vontade de preservar a identidade nacional e de conservar os laços afectivos de ligação à Pátria, mas que, não obstante o que as unia, permaneciam distantes e incomunicáveis entre si.

Era preciso dar um passo em frente para formas mais englobantes de cooperação entre instituições congéneres, entre Portugueses dispersos no espaço geográfico dos cinco continentes. Uma meta que, face à experiência do passado, parecia inatingível. Seriam os portugueses, ao invés de tantos outros povos europeus da emigração, definitivamente avessos ao envolvimento num amplo movimento de convergência? As Academias do Bacalhau vieram provar que não. Ao longo de mais de quatro décadas, mostraram tanto uma enorme capacidade plástica de se moldarem à situação e características das sociedades em que se inseriam, como uma surpreendente facilidade de vencer as distâncias geográficas, estabelecendo a ligação permanente entre todas, pontuada por Congressos Mundiais, que juntam anualmente centenas de “Compadres” em sessões de trabalho e em cordial convívio.

Este movimento converteu-se, assim, em paradigma de diálogo e articulação de projectos a nível intercontinental, e é também o único actuante, em simultâneo, nos mesmos moldes e com o mesmo espírito, na Diáspora e em Portugal.

A designação “Academia” não tem conotação elitista – as regras de tratamento no seu interior excluem, aliás, o uso de quaisquer títulos universitários ou profissionais – antes apelam ao igualitarismo e à camaradagem. E as Academias não têm uma sede patrimonial, pois o seu real património é a sua gente: os “Compadres e as Comadres”.

O lugar ímpar e cimeiro a que as Academias do Bacalhau ascenderam no universo da emigração, ficou, evidentemente, a dever-se à qualidade dos dirigentes. Tanto os pioneiros, como os que lhes sucederam eram, e são, líderes de larga visão estratégica, conhecedores da importância de conjugar esforços para consolidar e engrandecer verdadeiras comunidades em terras estrangeiras. Sabiam bem que estas podem datar a sua emergência e formação nos inícios do associativismo. Podem mesmo, a meu ver, sintetizar a sua história lapidarmente: “Associo-me, logo existo”.

Este poder criador e estruturante de comunidades, em sentido orgânico, está, de há muito, estudado e definido e é corrente distinguir, de acordo com as finalidades principais, as instituições de assistência e solidariedade, as agremiações de fins culturais, os clubes e centros recreativos. Todavia, as Academias do Bacalhau escapam a essa divisão clássica, devido ao eclectismo e pluralidade dos seus fins e singularidade dos meios utilizados para os cumprir, conseguindo assim ser, no estrangeiro, um elo de pertença à Pátria, e, no nosso país, um meio de compreensão e de convivência ecuménica com a Diáspora.

Julgo que o processo de descolonização de Moçambique e Angola, e, com ele, a necessidade de valer a dezenas de milhares de refugiados, foi um dos factores decisivos de uma rápida evolução para patamares de actuação cada vez mais elevados, e centrados na acção humanitária.

O regresso, em grande número, da África do Sul, anos mais tarde, terá sido determinante na constituição de novas Academias em Portugal e no mundo. Os “Compadres” retornados trouxeram consigo a saudade de África e a determinação de retomar o contacto e o trabalho beneficente, em terras portuguesas.

O Porto foi uma das primeiras cidades do país onde isso aconteceu,
como não poderia deixar de ser, já que, através de ilustres
portuenses, havia estado presente em Joanesburgo, no momento
do nascimento da “Academia Mãe” e, depois, em todo o processo
de consolidação e expansão do movimento. E bem pode dizer-se
que a imagem de marca da cidade – capacidade de iniciativa,
força de trabalho e extroversão da alegria de viver – se evidencia,
hoje, na dimensão e no dinamismo da briosa e exemplar
Academia do Bacalhau do Porto, que, este ano,
comemora as suas Bodas de Prata.

A fase seguinte foi a da difusão em novos destinos da Diáspora, o que nos leva a perguntar: e agora, que futuro para as “Academias”? Em tempo de crise sem fim à vista, num ponto de partida de grandes vagas migratórias, fenómeno recorrente na vida portuguesa, em ciclos que se encadearam, imparavelmente, nos últimos cinco séculos – quantos desafios vemos pela frente!

É o momento de pormos nas Academias do Bacalhau em Portugal e no mundo as maiores esperanças, apostando na sua experiência para enfrentar conjunturas difíceis e, como é da sua natureza, fazer história em gestos de solidariedade e simpatia.

Afirmação que avançamos, de caso pensado, com segurança, pois estamos a falar, afinal, naquele que se transformou no maior e no mais inovador movimento associativo dos Portugueses do mundo inteiro.

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